Que sei de amor, exceto que ele parece transbordar de seus olhos-whiskey me embriagando cada vez que me olhas.
The Vintage Cafe
- "Le langage des fleurs et des choses muettes" Baudelaire
Que sei de amor, exceto que ele parece transbordar de seus olhos-whiskey me embriagando cada vez que me olhas.
“Não feche as portas, deixa-as apenas encostadas.” Era o que ele sempre dizia. Tinha um verdadeiro pânico de portas trancadas. Quando vinha me ver, coisa que já não faz mais, porque hoje apenas liga de vez em quando para um encontro em um lugar neutro sempre num lugar barulhento e cheio de gente ou manda um desses e-mails que nunca são destinados somente a mim… Enfim, quando vinha me ver, chegava e ia entrando, não gostava de fechar a porta que ficava ali aberta atrás dele. Já chegava, abraçando se apossando de mim com aquela temperatura de rua contrastando com a boca quente e sempre doce. A porta ficava aberta durante um bom tempo. Não era preguiça de fechar, era um desconforto. Envolvida na sempre calorosa chegada dele, eu também me esquecia das portas até que o vento vindo do quintal carregando um cheiro frutal me trazia de volta à realidade. O calafrio separava a gente, desmagnetizava… E eu ia e fechava a porta.
“Pelo menos não tranca”, ele pedia com um desespero disfarçado com o sagaz sorriso que me desafiava a desfazer pouco a pouco com um beijo. Acabávamos sempre no meu quarto, na minha cama que parecia tão dele. A porta ele queria aberta. A verdade é que eu já havia me acostumado com o corpo dele ali presente e ignorava esse medo que latejava junto com o desejo. Ele nunca precisou do meu consentimento, sabia onde mergulhar e como me contornar.
Como combinamos que não queríamos nada sério, poderíamos ser apenas bons amigos ou bem mais que isso, mas nunca de porta fechada-trancada, nunca com espaço fixo, reservado, guardado. Eu nem sei em que momento deixou de ser algo sem compromisso e um cantinho do meu coração já estava decorado esperando por ele. Pare ele as coisas sempre foram mais simples, sabia que era gostoso e que era difícil ficar sem… Isso.
Mas há o momento que deixa de ser o suficiente e precisa evoluir, nesse momento escorreguei no fluido desejo-armadilha bem no batente da porta de frente para a escadinha, caí e foram fraturas múltiplas. Múltiplas expostas em face agonizante, momento em que no fim do abismo não há mais ninguém te esperando. Hoje, ando torta de saudade de algo que nunca foi. O cantinho decorado no coração virou abrigo para a tristeza e a porta de lá, madeira empenada, está sempre aberta. Ele levou a chave.
Castanhos, aqueles olhos pareciam conter um pedaço do mundo, a parte mais rochas e terra. O estranho eram as torrenciais tempestades de palavras caíam em água pura salgada das pálpebras no copo plástico, tão pretensamente seguro na errática mão esquerda. Aquecida pelos ventos de verão, que enlouquecem a mente das pessoas que ali moravam, sua mão de dedos longos era fogo. Um fogo que parecia aquecer aquela água tão cheia de memórias que até enfraqueciam os dedos tensos que cansados de segurar o copo, o soltavam pouco a pouco até deixá-lo cair derramando aquela água no quente e poroso solo tão castigado pelo clima sempre tão quente e seco que logo absorvia aquilo como se nada fosse. Ainda assim, o copo ficava caído ali. Seria de 200 a 450 anos, segundo os entendidos do assunto, o tempo que aquele copinho ficaria por ali, até ser tragado pela terra também. Sempre voltando para o olhar terra e rocha.
Eu comecei escrevendo poemas, mas desde que comecei a escrever contos nunca mais escrevi poesia, acho que não levo jeito. Este poema me foi enviado por uma amiga, a Mariana, para que eu alterasse apenas o final. Acabei mudando tudo. Abaixo o poema dela e em seguida o meu.
O título-música de hoje é Don’t blame me de Miles Davis.
I- poema_mariana
Ele não sabe o que acontece
Mas meu coração palpita como se
Quisesse escapar
Ele me avisa do risco
Que estou prestes a lidar
Mas sou mais forte do que ele
Consigo superar tudo
Mas quando ele me beija
Me perco e me entrego
Sem medo
Sem receio
Ele me aperta como se não pudesse se desfazer de mim agora
Eu não posso me desfazer dele agora
Seguimos cegos pela escuridão de almas
Por sentimentos traumatizados
De angústia e decepção
II- poema_lily
Do que acontece, ele nada sabe:
Coração fio de vida palpita como se escapar quisesse.
Fugitivo do peito, ele vai para a garganta,
Incorrendo no risco que estou prestes a correr.
É que a vida me ensinou que a força é maior
Tudo supera
Mas quando o beijo, perco e entrego
Sem medo-receio.
A mão procura, prende o pulso
Sussurra vermelho sangue que não quer se desfazer de mim agora,
cegos seguimos um mar de escuridão de almas
No agora nos perdemos no fio de pulsação
De sentimentos traumatizados
E só resta a angústia
Da tua inteireza, parte que se uniria a mim em entrelaço de destinos enlaçados com fita vermelha renda e seda, eu nada sabia. Incerta certeza dos passos de alguém que segue firme um caminho de tijolinhos amarelos e de repente se perde. Cérebro estático pulsando no coração. Foi o teu olhar de mágico sedento que buscou a umidade dos meus lábios de lírio e framboesa e foi assim tão simples como o mais longo dos beijos que me perdi do caminho solitário que as sapatilhas prateadas seguiam firmemente e achei meu coração-lar.
Já não era rascunho… Começaríamos a escrever nosso livro da vida juntos. Num segundo, todo o corpo, cabeça e coração giravam num momento sem gravidade, como o opaco universo iluminado por estrelas. Era harmonia e caos. Usaríamos incendiadas cores de felicidade para marcar nossos destinos agora unidos.
Eu agora tão lá, misturada nos reflexos que voltavam da luz do deu olhar, complexos espelhos da alma que encontra sua morada.
Lucy, aquela Dorothy.
- Você agora me vai achar piegas, mas deixa eu perguntar. Você não acredita em amor?
Caio Fernando Abreu
Lucy era simples, assim, como quase toda garota. Vivia uma tormenta de emoções, todas a dominavam, ventania que a carregavam para longe, sempre tão perto de lugar algum. Com toda a inocência que havia em seu olho-coração, tentava enxergar o melhor das pessoas. Vivia amor. E, acima de tudo, ansiava pela chegada daquele que lhe daria um lar em seu coração.
Num emaranhado indecente de ingenuidade, desciam os cabelos cor de avelã lá pela altura nos seios de mulher-menina. Tinha um jeito que me lembrava Dorothy Gale. Assim como a moça da clássica história, Lucy conquistava o mundo com sapatinhos prateados que se destacavam no caminho de tijolinhos amarelos que era a vida para essa moça. Ela se morria de amores.
Às vezes acordava mais indecência do que ingenuidade. Nossa menina hoje resolveu acordar menos sorriso, um tanto surda das cores que alegravam essa outra zona em que vivia. Resolveu ser cética por um momento, refugiou-se no medo e os olhos esmeralda como a cidade que um dia já buscou perderam um pouco de seu brilho. Encontros e desencontros passageiros fizeram-na acreditar que jamais encontraria um amor-lar, cantinho pra aquietar-se na felicidade. A cegueira parcial não deixava a moça achar o que buscava. Às vezes o vermelho rubi, rubor nas bochechas ardia febril e o coração casa tornava-se vulto perdido na desbotada espera, esperança.
Na sua ausência, conheci uma cidade que eu nem sabia que existia, mas que me lembra suas histórias… A sombra da tua companhia está ao meu lado quando ando por ruas pelas quais passamos abraçados conversando e sorrindo voltando ou indo para algum lugar.
A solidão me faz sentir culpada, parece traição não estar cada segundo ao teu lado. Estranha essa maneira que eu sinto e penso, sempre procurando nos momentos de solidão no arquivo de memórias desbotadas conversas, olhares, lugares onde estive sem você. Qualquer coisa que possa me incriminar. Nunca encontro nada, mas sempre quero me sentir casta para você. Na sua ausência esqueço que isso não importa tanto, talvez seja a saudade. Falando assim parece um peso tremendo o que carrego, mas não é, é só vontade de retribuir, de me entregar da maneira mais correta possível a você. É que o mundo lá fora parece sempre tão cinza, um cinza que revela o deserto da alma de pessoas atormentadas, é um lugar onde eu não quero estar e sem você sempre perto tudo fica estranho. Ao teu lado sinto-me protegida de tudo isso. O nosso amor é o meu oásis.
Em baixo da pia do banheiro, sob as roupas sujas que você por descaso deixou lá, está essa tênue luz do olhar que revela um amor que brilha forte e constante em nossos olhos. O fato é que você me basta. Ao seu lado me sinto num universo criado apenas para nós dois. Parece mesmo que o normal é você estar aqui desde sempre e quando você chega parece que todos os pensamentos coerentemente ilógicos, desconexos e improcedentes se desfazem como o corajoso sol numa melancólica e doce tarde fria que com seus raios abrasadores chama o campo ainda adormecido pelo gélido e austero inverno. Esse seu olhar de âmbar toam o âmago da minha alma amorosa e afastam tudo o mais que não seja a profusão de sentimentos que você desperta em mim.
*Por Mi Camino- The Iguanas
Hey, queridos que me leem. Tenho um novo espaço o Vintage Cafe que divido com minha amiga e parceira no crime Mariana Camargo. Não é um espaço, a princípio, para contos e poemas e sim para cultura, conversas, citações, e o que mais for. Para conferir clica: vintagecafe.wordpress.com
“E corava pouco à pouco até ficar bem vermelha, como se em dez minutos passasse por seu rosto uma tarde de sol”, talvez essa fosse uma das poucas lembranças que gostaria de levar consigo daquela relação. Já sabia que prolongar mais aquela união não adiantaria em nada que não fosse mais uma mulher iludida correndo atrás dele. Aquela paixão estava fadada ao fracasso, as tênues luzes do sol nos olhos castanhos dela revelavam-lhe que nada poderia ser eterno. Parecia insignificante dentro da intensidade do eterno. Prefere afastar-se do precipício, fugindo da feroz queda no abismo dos fugazes sentimentos.
Deliberadamente passou a oferecê-la as amargas palavras sobre a vida cotidiana e na solidão do deserto de almas que era a cidade. Sempre que podia a puxava para baixo, não a deixando entrar em sua alma. O consolo vinha em duras frases que adornavam o cinza concreto do vazio olhar. Até finalmente desabafar: “Atirar-se no abismo do amor é morrer, você apenas cria esses labirintos de dor para se distrair”.
“somos todos passionais. uns mais, outros menos. uns gritam suas angústias, pedem explicitamente, atacam o objeto de amor. uns esperam, recolhem, se encolhem. seja como for, é um mundo intenso que está sendo vivido e experienciado. o mundo interior do qual partimos para todas as nossas aventuras e ao qual sempre retornamos, com mais bagagem e coisinhas a guardar.”
- MARCIA BENETTI [http://marciabenetti.blogspot.com]
Os olhos castanhos pareciam mais acinzentados do que o de costume. Estava sozinha sentada na mesa do bar, sempre era a primeira a chegar. A fumaça do cigarro de cereja que Anne fumava misturava-se ao pesado ar de inverno da cidade cinza deserto de almas, a mesma fumaça que aparecia no distante olhar. Não havia muito movimento naquele fim de tarde. Não parecia ansiosa ali esperando.
Começou no inicio da tarde. A janela do MSN começa a piscar e a conversa começa. São tantas as dúvidas da amiga. Mel tem certeza de como agir num minuto, n’outro tudo nela é uma confusão de pensamentos e sentimentos. Sempre há um ‘ou não’…
Ela tem medo de se entregar, de sofrer de novo. “Se você perguntar pra ele como ele se sente, se disser para ele que você quer namorar pelo menos tem a resposta logo e não fica sofrendo por antecipação”. “Estou cansada de exigir posição, resposta ou definição. Não quero nada que eu tenha que pedir. Acho que essas coisas não se pedem. Ele que tem que tomar a iniciativa de se definir”, diz ela. É sempre assim com ela, o mocinho que tem que se definir e, no fim, ninguém define nada. Ela sofre. “Tanto pedir, quanto dar faz parte da relação, é uma via de mão dupla (o clichê)”, digo a ela. Algumas pessoas precisam de um empurrão, não é?
Ela chega ao bar, a conversa continua. Incentivo um diálogo aberto. Retiro o que disse milhões de vezes, depois reafirmo tudo. Retiro de novo, um diálogo aberto pra mim e pro meu querido é fácil já confiamos tanto um no outro, já ela está no primeiro passo. A situação é diferente, a confiança ainda está sendo construída. É uma luta diária, disso eu sei, até em relacionamentos longos é assim. Alimentando o amor, a confiança, construindo e reconstruindo minuto a minuto sempre e sem parar. Parece ser difícil se entregar (ás vezes penso que isso é um absurdo, basta um mergulho no abismo).
Digo que não vai dar certo que ele só quer brincar, depois desminto tudo. Ela também. Duas confusas tentando escrever um manual de conduta para o amor. No meu caso, que amo há uns seis anos (como se a contagem do tempo fosse tão determinante assim), parece mais a elaboração de uma bula de remédio. Com reações adversas, efeitos colaterais, posologia e o caralho-a-quatro.
Antes de deixá-la em casa, digo a ela: “Quem sou eu pra falar de amor e te dar conselho só porque minha relação dá certo, só porque tenho sonhos de taças de cristal e véus brancos…”
Quando eu não vejo a hora de você chegar com essa temperatura de rua, vento e sol em você, eu ando sem parar pela casa. Arrumando o que já foi colocado e recolocado no lugar cem vezes.
Olhando a cerejeira no meu quintal, gosto de pensar que o nosso amor é diferente das suas tão efêmeras flores com a sua tentativa de alçar voo, mas acabar no chão. Prefiro o duradouro que vejo nesse rajar de ouro em seus olhos tão meus. Os olhos de whiskey que embriagados gravaram-me por inteiro. Prefiro que você me comande, quero seguir o caminho dos seus passos e guiar os seus, rastros no solo úmido… Desmanchando as tolas flores no chão. Penso que a gente é raiz, tronco, galho.
Tá bom, até mesmo essas tolas flores… Passageiros momentos que em sua fragilidade e fugacidade serão tragados pelo solo e continuarão nos nutrindo a raiz.
Mesmo que fossem apenas alguns minutos ao seu lado… Eu nunca rejeitaria essa chance. Mas não é o efêmero que busco em você. Nos entregamos um ao outro devagar, talvez assim seja melhor. O mergulho assim é mais profundo.
The Smiths questionaram uma vez “Does the body rule the mind Or does the mind rule the body ?”. O tipo de pergunta sem resposta. Uma querida amiga sempre diz algo como “O caminho que for mais coração é o que vou seguir”.