O seu lugar é cativo. Simples, suave, mas incessantemente, essa parte de mim dói. Nesse canto escondido decorado de saudade, esse lugar que depois dele ficou desocupado. Tenho consciência desse lugar, em particular, dentro de mim. Nos vagos gestos sinto falta do efêmero invisível entre de nós, meu cálido cheiro de lírio e framboesa a te invadir a sofrida alma cadente que aos poucos se afogava na torrente de sensações em que nos perdíamos.
Na casa vazia, sentada na poltrona ao lado da janela, observo a roseira. Hoje as flores estão tristes como meus olhos que morrem no crepúsculo deste dia pensando em seus incandescentes beijos com cheiro de amor. Perco-me na lembrança do doce e quente gosto sempre presente em sua suave boca. Mas a efemeridade desse pensamento é como nosso tempo juntos. Esse tempo se faz passar arrastado, não é como aquele que vivemos, tão fugaz que não se fazia notar passar. “I Nearly died”.
Eu sei que ela gosta de cappuccino com chocolate e chantilly em dias cinza assim, um tanto frio, um tanto úmido. Senti essa necessidade de procurá-la. Era a primeira vez em dias que não conseguia pensar em nada. Quando a vi. Estava sentada nesse café da cidade, sozinha, lendo um livro qualquer. Imediatamente senti saudades da sua voz, sempre tão doce, preenchendo minhas noites de insônia. Era sinestesia pura estar com ela. Senti falta das suas dores e das suas obsessões.
O que tínhamos nem chegou a se esvair, percebo isso ao sentir meu coração. Eu podia ouvir as batidas. Essa insana vontade que olhar para ela desperta em mim, esse otimismo desesperançado daqueles que imploram o que sabem que nunca terão. Eu nunca a teria, não por inteiro.
Eu só fiquei ali em pé, durante alguns minutos, onde ela não poderia me ver. Parecia absorvida pela leitura. Enquanto eu me perguntava se hoje os seus olhos estariam cálidos, cheios de sussurros premeditadamente impensados, doces insinuações ou se estariam cheios e meias palavras, com a frieza que procura desconstruir e distantes. Eu só queria lhe pedir outro vislumbre de uma real ilusão, um desses vislumbres avassaladores que quando acabam nos deixam desconcertados.
As histórias que crio para mim gosto de saber que posso tocá-las se quiser. Eu a tenho agora, mas daqui a pouco não terei mais. Hoje seu quente cheiro inunda o ambiente e me embriaga como algumas doses de tequila, sua transitória presença se faz constante em minha fria casa.
Não espero que me diga quando vai ou se um dia vai voltar. Leve consigo, guardado junto às lembranças de perfumes e sons, de imagem e poema, o meu telefone e me ligue se quiser. Um dia apenas me dirá que a noite já se fora e que não poderia dormi-la comigo. Eu nem me importo que tenhamos pouco tempo, sei que extraí o melhor de mim para lhe dar, mas não deixaria que isso o que temos (isso inominável) se tornasse maior e me tomasse a vida.
Às vezes penso que não deveria me olhar assim, entregando-se tanto. Marcado em mim este olhar que suplica ficará marcado na retina e me entristecerá nas manhãs que um cheiro parecido com o teu invadir a sala. Sentirei falta do inocente modo como me faz dizer as coisas, alterados batimentos cardíacos por causa do desejo e de tudo o que passou desapercebido.
Depois de um ano que nos conhecíamos, ela continuava como na noite em que a conheci: tímida, um pouco hesitante. Parecia sempre deslocada. Mesmo com a timidez, no entanto, dava para perceber que havia alguma coisa sólida e sincera em Anne. E eu não conseguia tirá-la de meus pensamentos.
Foi assim que aconteceu com ele também, ele já não era tão tímido, ele tentava me enganar com todas aquelas frases feitas e histórias ensaiadas. Eu tomei tudo dele (Antonny me tomou por completo também). Estou acostumada com despedidas e gosto de pensar que as pessoas a quem amei levam consigo uma parte de mim. Da mesma maneira que perdidos nos encontramos e perdemos novamente, podemos nos reencontrar.
Tudo o que eu queria não caberia em apenas uma vida, por isso adoro existir como se estivesse perdida, como se nada tivesse tanta importância, acabo construindo as armadilhas que mais tarde vão me prender. Não me culpe e eu não me culpo. Acontece que sinto a necessidade de provocar. Sempre estarei aqui se ela quiser.
Eram constantes as tardes que passávamos juntas, num mundo de carícias e músicas que criamos para nós. Um lugar longe do barulho do trânsito, das notícias e da realidade que enfrentaríamos ao cruzar a porta da frente da minha casa. Apenas contemplamos uma a outra enquanto o gelo derretia no copo de suco de pitanga que dividiríamos. Os olhos cor de mel de Anne me chamam e eu apenas corro em sua direção sem pensar, coisa que surpreenderia àqueles que pensam que tenho água gelada no lugar do cálido sangue.
Em dias ensolarados como o de hoje, seu cândido sorriso ofusca a bagunça que faço com minha vida. Com ela o canto dos pássaros na árvore do quintal não mais era um estorvo, esses doces sons se tornavam plano de fundo para os segredos sussurrados nas tardes quentes de um inverno em Brasília.
Que diferença faria falar sobre planos para o futuro se tínhamos tudo agora? A cada gesto se mostrava para mim como eu a queria, menos tímida e hesitante. A cada fugaz encontro ela se tornava uma nova pessoa e sua mudança me fascinava. É isso que me encanta a capacidade de mudarmos, de influenciarmos uns aos outros.
Gosto de saber que você leva uma parte de mim a cada despedida e que meu cheiro de lírio vai ficar em você por algum tempo mais, aos poucos vai ser levado pelo vento e outras pessoas que você abraçar vão senti-lo. Eu conto os dias até você sumir, até inventar uma desculpa qualquer para não atender os meus telefonemas. Tudo bem, eu entendo. Era essa a intenção. Minha querida, pegue o que quiser de mim e depois me deixe aqui.
Hearts fail – young hearts fail Anytime – pressurised Overheat – overtired Take it quick – take it neat Clasp your hands – touch your feet Take it quick – take it neat
[Joy Division- Glass]
A primeira vez que a vi foi num bar com uns amigos. Catarina, uma amiga em comum, me ligou, depois de muitos “Cat hoje não, linda. Fica pra próxima.”, fui vencida. Relutante fui encontrá-los. Pelo menos desta vez, meus amigos escolheram um lugar mais legal.
O bar era novo, grande e bem decorado, eu já havia ido uma vez, adorei a pintura nas paredes, as cores quentes, vermelho e laranjado. Cheguei, entrei. Estavam tocando alguma música do Joy Division. Então boom. Lá estava ela, sentada rindo e conversando na mesa do bar. A roupa nada desleixada mostrava que se preocupava com seu estilo. Como ela estava linda com uma blusa branca customizada do Ramones, shortinho jeans e sapatinhos pretos.
Seu sorriso parecia um pecado, seus olhos tinham um brilho estranho… Meio louco, meio romântico. Eu só desejei poder ser resgatada por aquele olhar que parecia querer me ensinar como sobreviver aos outros. Os cabelos castanhos estavam soltos e meio bagunçados, no batom vermelho dos lábios, o escandaloso e cego aviso de quem sussurra “Tudo não passa de uma brincadeira.”
Odeio batom. Nunca uso. Cheguei disse um “Oi” pra geral, sentei e me apresentei logo a ela. A única que eu não conhecia naquela mesa. Julieta… Ela me atraía, em todos os sentidos, parecia um atentado ouvir outra voz que não fosse a dela em meio a todo aquele barulho de bar… Outras vozes se misturavam a dela, outros toques pedindo minha atenção, a interferência constante de um garçon chato.
Eu só queria um pouco mais dela. “A Cat me disse que você fotografa, a gente podia sair algum dia pra tirar umas fotinhas.” Ela disse como quem pensa em cada palavra como uma armadilha para te prender e eu imediatamente pensei “Escapar com você para um mundo preto e branco de fotografias seria um sonho” Eu agarrei-me àquela chance, só queria ser qualquer coisa na vida dela…
Não bastava ele mesmo ter consciência de tudo de errado em sua vida, as pessoas insistiam em falar pra ele. Tornar o seu fracasso mais evidente. Eram essas procarias que ficavam colocando em sua cabeça que não o deixavam mais parar de pensar. Ele sabia. É impressionante, só pode ser algum tipo de estratégia de guerra. Ficar minando a segurança de alguém com comentários, esses pequenos comentários… Sempre desnecessários, mas que ficam ali guardados na cebeça.
Vivia para o trabalho já há algum tempo. Sua vida amorosa era um eterno vai e vem de quadris conhecidos e desconhecidos, preenchida com vazios encontros cheios de uma paixão e um desejo que não sabia de onde vinha. Encontros que terminavam em tentativas sempre frustradas de encontrar algo que durasse além do prazer.
Já desistira de tentar se entender. Na maioria das vezes sentia-se preso a uma louca rotina, como se fosse a sombra do que sonhava ser. Quase como se sua vida ainda fosse começar. As pessoas notavam isso? Era terrível sentir-se violado dessa maneira. Quando foi dormir naquela noite de inverno, ficou pensando no que uma colega do trabalho lhe disse. Você parece uma daquelas pessoas que a qualquer momento vai explodir, mas talvez seja só impressão minha. Parece que reprime uma tristeza aí dentro. Agora estava pensando, revendo suas atitudes, diálogos, comportamentos…
O que mais seria tão evidente em seu comportamento, pegou-se perguntando na penumbra do quarto. Não mais sabia ao que pertencia e onde terminaria, nem se lembrava de algum dia ter noção dessa resposta, então permanecia quieto esperando sozinho dentro de si mesmo. Lembrou-se de Julieta, sentia-se devastado depois que ela passou por sua vida. Novamente sentia a necessidade de calar o pensamento e esconder-se de seus sentimentos. Cada vez mais parecia que havia se tornado tão ou mais negligente com seus sentimentos do que ela.
Impaciente, levantou-se e sem acender as luzes foi para a varanda de seu apartamento, desta vez sem trilha sonora (era tão Julieta, ter uma música para cada momento, sem espaço para silêncios), hoje ele preferia assim, sem música. Deixou o silêncio da madrugada ecoar o silêncio de suas vontades sempre negadas e de seus sentimentos deixados de lado, acendeu o cigarro da saudade e lhe pareceu que a fumaça inundava seus olhos.
Nunca espero mais do que isso. Aquecer meu corpo por mais uma noite. Mas de repente, você. Eu amo o teu rosto, sua doçura, sua pureza, seu jeito sedutor. Eu sabia que você mentia pra mim. De início pareceu real, sua idade, seu jeito malandro combina. A profissão que disse ter, o período na faculdade, você me contou com tantos detalhes. Mas uma parte de mim queria brincar, sabia da verdade, mas se deixou levar. Você se deixou levar por mim. A música alta que não me deixava ouvir as histórias que contava pra me impressionar. Meus vinte e três anos contra os seus dezoito não foram tão importantes naquela primeira noite, nem nos dias e meses seguintes.
Eu adoraria ter controle total sobre você. Eu tive. Ainda tenho. Mas sempre soube também que deveria deixar você ir e me telefonar quando quisesse. Sabia que um dia perderia meu número, no outro o encontraria em meio os CDs de bandas novas e antigas que te dei, em meio aos livros e poemas nos quais te viciei. Você sempre soube que nos dias que não aparecesse, nos dias que estivesse na faculdade ou viajando, conhecendo os lugares dos quais te falei… Nesses dias eu teria me aquecido, mas nunca esperaria mais do que isso.
Ele havia dito que já tinha tido seu tempo, que iria mudar. Sentia que precisava mudar, mas não conseguia. Sentia-se cansado, ao meio dia já havia esgotado a primeira carteira de cigarro. Ao chegar no apartamento vazio, sentia que o silêncio pesava e pressionava aquelas paredes encardidas. Saiu de casa, andou pelas ruas vazias, tentando dizer a si mesmo para aguentar. Acabava recorrendo aos encontros de alívio imadiato, ligava para alguém e se encontravam, dava uma enrolada em um barzinho onde praticamente não conversavam apenas olhavam ao redor desconcertados, depois iam direto para seu apartamento. Mas sabia que não iriam se satisfazer, era apenas um alívio, quase um desabafo. Era assim com todas elas. Depois iam embora. Prometiam que iriam telefonar e acabava. E novamente estava sozinho com sua má sorte, ouvindo Black Angel Blues, o blues que deixava o ambiente com cheiro de cigarro, uísque e de um corpo quente. Sentia como se sua liberdade fosse uma ilusão apenas.
Era uma manhã gelada, com o vento a sacudir as janelas e a infiltrar-se por todas as frestas. Agora que ela resolvera odiar o mundo, não aguentava mais ouvir as aves que suavemente cantavam, desafiando o inverno, na árvore do quintal de sua casa. As atitudes dela eram sempre dramáticas, exageradas. Como uma criança fazendo pirraça, andou até a janela aberta, eu uma olhadela mal- humorada para a árvore, fechou os punhos e marchou para a sala para colacar uma música alta e agitada. Algo bem condizente com seu estado de espírito naquele dia. A melodia violentava e se sobrepunha ao frio sussurro do vento, enquanto ela cantava a plenos pulmões a letra igualmente forte da canção. De costas para a janela, seu corpo se agitava o ritmo da música, enquanto o ela sentia o implacável frio do vento bater-lhe nas costas como alguém que pede atenção. E a música a envolvia, por completo. Ela só não queria mais pensar.
Como ser coerente? Às vezes parece que quero abraçar o mundo, quero tudo e quero ao mesmo tempo. É difícil ser você mesmo, mais fácil é se achar errado por agir diferente de todo mundo, ou fingir que está agindo igual, quando não se está…
Muitas vezes dói descobrir a excessão… Cada pessoa é um mundo à parte, um infinito particular e é tão difícil reconhecer esse universo ao nosso redor, reconhecer a opinião do outro, impor sua opinião… E quando devemos passar por cima da nossa opinião? Quando evitar o conflito? Até que ponto é preciso calar? Até onde o respeito ao sentimento alheio deve prevalecer sobre o nosso? E até onde o nosso é o certo e deve prevalecer? É preciso perder-se mesmo? E quando já estamos perdidos? E quando sempre nos sentimos perdidos? Como fazer pra se encontrar? Como definir vontades e correr atrás disso pra dar tudo certo no final?
"Et qui va répandant sur tout, insouciante
Comme l'azur du ciel, les oiseaux et les fleurs,
Ses parfums, ses chansons et ses douces chaleurs"
Baudelaire
@Culpada
L.J
"Le langage des fleurs et des choses muettes"
Baudelaire