“Não feche as portas, deixa-as apenas encostadas.” Era o que ele sempre dizia. Tinha um verdadeiro pânico de portas trancadas. Quando vinha me ver, coisa que já não faz mais, porque hoje apenas liga de vez em quando para um encontro em um lugar neutro sempre num lugar barulhento e cheio de gente ou manda um desses e-mails que nunca são destinados somente a mim… Enfim, quando vinha me ver, chegava e ia entrando, não gostava de fechar a porta que ficava ali aberta atrás dele. Já chegava, abraçando se apossando de mim com aquela temperatura de rua contrastando com a boca quente e sempre doce. A porta ficava aberta durante um bom tempo. Não era preguiça de fechar, era um desconforto. Envolvida na sempre calorosa chegada dele, eu também me esquecia das portas até que o vento vindo do quintal carregando um cheiro frutal me trazia de volta à realidade. O calafrio separava a gente, desmagnetizava… E eu ia e fechava a porta.
“Pelo menos não tranca”, ele pedia com um desespero disfarçado com o sagaz sorriso que me desafiava a desfazer pouco a pouco com um beijo. Acabávamos sempre no meu quarto, na minha cama que parecia tão dele. A porta ele queria aberta. A verdade é que eu já havia me acostumado com o corpo dele ali presente e ignorava esse medo que latejava junto com o desejo. Ele nunca precisou do meu consentimento, sabia onde mergulhar e como me contornar.
Como combinamos que não queríamos nada sério, poderíamos ser apenas bons amigos ou bem mais que isso, mas nunca de porta fechada-trancada, nunca com espaço fixo, reservado, guardado. Eu nem sei em que momento deixou de ser algo sem compromisso e um cantinho do meu coração já estava decorado esperando por ele. Pare ele as coisas sempre foram mais simples, sabia que era gostoso e que era difícil ficar sem… Isso.
Mas há o momento que deixa de ser o suficiente e precisa evoluir, nesse momento escorreguei no fluido desejo-armadilha bem no batente da porta de frente para a escadinha, caí e foram fraturas múltiplas. Múltiplas expostas em face agonizante, momento em que no fim do abismo não há mais ninguém te esperando. Hoje, ando torta de saudade de algo que nunca foi. O cantinho decorado no coração virou abrigo para a tristeza e a porta de lá, madeira empenada, está sempre aberta. Ele levou a chave.






Esses que se vão e ainda levam a chave de dentro são os piores… na verdade, quem não leva, né?
Beijos, flor, adorei seu texto, como sempre!
Bonito…mas triste…ela ficou só…que puxa…
Outra coisa…você foi premiada…foi o PRIMEIRO COMENTÁRIO do meu BLOG ! Beijos!
Lindinho demais, Jade. saudades de você.
Tudo lindo por aqui…
Se quiser ver de novo, há outros fragmentos de um discurso amoroso sobre a cidade em http://chiarosscuro.blogspot.com/
Saudações
Rosaura
Que bom que está gostando dos nossos retratinhos…
um abraço
Rosaura
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